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A salamandra Axolote (Ambystoma mexicanum)

A salamandra Axolote (Ambystoma mexicanum)
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O Axolote (Ambystoma mexicanum) é uma salamandra endêmica do México que faz parte de um dos três ramos da classe Amphibia.

A aquariofilia sempre nos reserva surpresas, por ser um hobby com inúmeras possibilidades. Novas espécies são descobertas a cada dia, e sem duvida os peixes ornamentais nos encantam. Contudo sou um amante de todas as formas aquáticas, e em meados de 2003 ao visitar um grande amigo que possuía na época um aquário de jumbos. Notei outro aquário que pertencia a sua irmã com uma criatura até então desconhecida pra mim. Lembrava um pequeno “dragão” com aspecto mais delicado, uma criatura realmente exótica.

Axolote (Ambystoma mexicanum
Axolote (Ambystoma mexicanum (Créditos John P. Clare)

Fiquei muito impressionado, perguntei o que é isso? a resposta ficou gravada em minha mente, o nome é Axolote. Naquele momento tive a certeza que esse encontro não seria por acaso, logo teria o meu pequeno “dragão”.

O Axolote (Ambystoma mexicanum) é uma salamandra, um anfíbio parte da ordem Caudata/Urodela, faz parte de um dos três ramos da classe Amphibia, que inclui inclusive Rãs e sapos. Axolotes são endêmicas do Lago Xochimilco e Lago Chalco, ambos localizados na região central do México. Infelizmente é cada vez mais raro encontra populações selvagens, exatamente pelo destruição sistemática de seu habitat pela ação do homem.

pH 6.6
Temperatura 16 ~18Cº
Substrato fino

Regeneração

Regeneração Axolote
Regeneração Axolote (Ambystoma mexicanum) Via Bioficcion

Sem duvida são criaturas de rara beleza e características únicas, uma das mais impressionantes é sua incrível habilidade de cura e regeneração. Basicamente em animais a cicatrização de feridas ocorre através do crescimento de tecidos, e na maioria dos animais não ocorre a regeneração. No caso do Axolote a regeneração poderá ser completa.

Maturidade sexual

Adulto Axolote (Ambystoma mexicanum)
(Créditos John P. Clare)

Outra curiosidade muito interessante, Axolotes tem uma propriedade estranha conhecida como neotenia. Isto significa que, ao contrário de outras salamandras, elas atingem a maturidade sexual sem passar pelo estágio da metamorfose. Como não se apaixonar por uma criatura tão extraordinária?. sua expectativa de vida será em média de 15 anos.

Dimorfismo Sexual

Dimorfismo Sexual Axolote
Macho (acima) e fêmea (abaixo) de Axolote

Fêmeas possuem corpos mais arredondados, cloaca levemente visível. Machos são mais esguios, alongados e calda maior em comparação a calda das fêmeas. A cloaca do macho possui volume muito maior em comparação a da fêmea que possui volume suave.

Reproduzindo Axolote

A primeira coisa que devemos observar é a idade para que possam reproduzir. São animais que atingem sua maturidade sexual aos cinco meses de idade, contudo esse período pode variar dependendo da forma como são mantidos, por esse motivo é fundamental que a qualidade de seu sistema tenha maior estabilidade possível.

Idealmente devemos escolher casais um pouco mais maduros, uma forma interessante de identificar uma possível matriz é escolher peixes com pelo menos 20 cm ou 18 meses de idade em média. Esse quesito é muito importante por ser relativamente comum a perda de fêmeas quando muito jovens no momento do acasalamento, sendo crucial escolher o momento certo para manter a integridade da fêmea, machos são relativamente tranquilos em relação ao acasalamento não trazendo problemas mesmo quando o acasalamento for feito com machos mais jovens, contudo, e preferencialmente escolheremos um casal um pouco mais experiente.

Nossos Axolotes podem reproduzir em qualquer período do ano, muitos afirmam que o melhor período seja entre dezembro a junho, contudo devemos entender que nossos animais estão em um ambiente fechado, e por esse motivo a referencia natural é completamente diferente de animais em seu meio de origem.

Devemos estimular nossos Axolotes para que possam reproduzir regularmente. Normalmente as fêmeas estão mais propensas a reprodução, enquanto machos normalmente se mostram um pouco indiferentes. Para que possamos estimular os machos é sempre muito interessante que façamos uma troca parcial de água com uma diferença de cinco graus em relação a temperatura do aquário de reprodução. A troca pode ser em media de trinta por cento, depois da troca poderemos observar uma maior movimentação e interesse do macho.

Caso o casal ainda esteja relutante em reproduzir, podemos usar a técnica de Fotoperiodismo que consiste em diminuir gradativamente durante duas semanas a iluminação natural do sistema que mantem nossos Axolotes utilizando um dimmer, ou sistemas de iluminação com dimmer acoplado. Ao final de duas semanas devemos fazer o efeito contrário aumentando gradativamente a iluminação por cerca de duas semanas.

O aquário de reprodução deve possuir uma quantidade razoável de plantas, podem usadas plantas artificiais ou musgo de java ou similar. As plantas são fundamentais para que a fêmea possa afixar seus ovos. Devemos cobrir o fundo do aquário com placas de pedras planas e ásperas. Uma ótima opção seria a ardósia, sendo fundamental esse detalhe para que o macho possa depositar seus espermatóforos, ou seja, seus “pacotes de esperma”. Se a superfície for muito lisa os espermatóforos não irão aderir levando ao fracasso da desova. É fundamental que o aquário de reprodução esteja em um local tranquilo, sem a passagem de pessoas, preferencialmente um local que somente o aquarista tenha acesso regular. Filtros de espuma são uma escolha perfeita para este aquário de desova.

O macho irá começar a cortejar a fêmea nadando ao redor dela fazendo movimentos repentinos e vigorosos levantando sua calda inclusive. O macho basicamente irá “empurrar” a fêmea em direção aos espermatóforos que estarão aderidos ao fundo do aquário de reprodução. O macho irá depositar em media de cinco a vinte e cinco destes levando a fêmea na direção deles. A fêmea irá posicionar o “pacote de esperma” em sua cloaca, a fertilização ocorre internamente.

Entre um período de algumas horas até dois dias, a fêmea começara a gerar os ovos depositando individualmente os mesmos nas folhas das plantas ou musgo. Contudo poderá depositar seus ovos em qualquer superfície ou objeto disponível caso o aquário não possua plantas. Esse processo poderá gerar algum tipo de stress, por esse motivo idealmente devemos providenciar como já colocado, plantas artificiais ou musgos. Poderá produzir de 50 a 1000 ovos dependendo do tamanho da fêmea. Depois que a fêmea terminar a desova, devemos retirar do aquário de reprodução o casal.

Os ovos devem ser mantidos em agua bem arejada, idealmente utilizaremos compressores de ar para conseguir esse efeito. É fundamental que os ovos estejam em uma água com boas taxas de oxigênio dissolvido, mas evitando fluxo forte. Devemos manter os ovos em temperatura de cerca de 20 C°, a eclosão ocorrerá em aproximadamente 17 dias. As larvas medem em media 13 mm. Na incubação eles ainda irão apresentar a grosso modo uma mancha visível a olho nu (gema de seus ovos) em seus estômagos, até que essa porção do ovo esteja lá as pequenas larvas não precisarão ser alimentadas.

Evolução do Axolote (Ambystoma mexicanum)
Evolução do Axolote (Ambystoma mexicanum)

Depois de 24 a 72 hora (observe a pequena mancha) as larvas irão precisar de alimentos. Devemos alimentar apenas com alimentos vivos de tamanho apropriado. As larvas não aceitarão alimentos mortos até ficarem um pouco maiores. Para larvas recém – incubadas poderemos alimentar com nauplios de artemia. Outros alimentos vivos poderão ser tentados apartir do momento que as larvas desenvolvam suas pernas dianteiras. A chave é variar a alimentação, outras opções interessantes são a daphinia e microvermes.

Podemos manter as larvas juntas quando muito jovens, não havendo risco de canibalismo, contudo, quando as pernas dianteiras estiverem desenvolvidas, devemos observar esse possível comportamento exatamente porque as larvas não crescerão de forma uniforme. A taxa de crescimento é lenta, com uma semana devem ter cerca de 1,5 cm. Trocas parciais semanais são muito importantes para ajudar no desenvolvimento das larvas. Uma dica interessante é tentar manter Daphinias junto com as larvas depois das primeiras duas semanas, desta forma terão pronto alimento em tempo continuo. Com 2 cm de tamanho devemos remanejar as larvas, com esse tamanho é relativamente normal o instinto de canibalismo natural do Axolote.

Normalmente as pernas dianteiras começam a se desenvolver quando as larvas apresentam um tamanho de 20 mm, as pernas traseiras começam a se desenvolver no final da terceira semana aproximadamente, esse período vai depender diretamente da temperatura e alimentação. Os pulmões irão se desenvolver no período próximo ao das pernas traseiras. Devemos tentar manter aproximadamente 15 a 20 larvas por aquário com aproximadamente 50 x 30 x 30. As larvas com 2,5 cm já podem ser encorajadas a comer alimentos mortos congelados.

É fundamental acompanhar o crescimento das larvas e possível remanejamento para aquários maiores a medida que crescem. Com cerca de 4 cm devemos deixar poucas larvas juntas, nesta fase o canibalismo é muito frequente quando mantidas em quantidade maior. Em vez de 15 a 20 larvas devemos deixar cerca de 8 larvas no aquário de 50 x 30 x 30. Estirpes selvagens são muito mais agressivas em comparação a outras variedades. Com cerca de 6 cm são como replicas dos pais, já podem comer facilmente alimentos congelados como blood worm, ou tentado algum tipo de alimento granulado de excelente qualidade. Devemos reduzir a densidade populacional para cerca de 4 exemplares ou menos no aquário de engorda mencionado.

Cuidados

Manter esses anfíbios e algo relativamente fácil, a questão primordial é respeitar suas exigências básicas de manutenção. No caso do Axolote o detalhe pode significar a vida ou a morte em nossos sistemas. Relatarei a minha humilde porem gratificante experiencia em manter esses fantásticos anfíbios, e principalmente os pontos fundamentais para garantir sua vida plena em nossos aquários.

Mantendo Axolotes no aquário

Mantendo Axolotes no aquário
(Créditos:Caudata.org/Mark)

Vamos conhecer os principais fatores que em minha experiencia foram fundamentais para manter Axolotes de forma plena.

Fluxo de água/Filtragem

Axolotes são basicamente sensíveis a fluxos de água muito elevados ou até médios. Preferem águas calmas, porém muito bem oxigenas e limpas. Nesse caso devemos criar algum mecanismo para que a corrente provocada pelo sistema de filtragem seja “bloqueada” evitando correnteza.

Praticamente todos os filtros atualmente possuem controle de vazão, no caso de sistemas sem controle de vazão, iremos direcionar a fluxo linear das bombas para o canto do aquário ou mesmo para o vidro, dessa forma haverá oxigenação e filtragem sem tanta correnteza.

Muito importante providenciar uma ótima filtragem biológica e mecânica, Axolotes produzem uma quantidade considerável de detritos, nesse caso devemos caprichar na quantidade de mídias, em minha experiência a proporção de dois litros de uma mídia de ótima qualidade será suficiente para proporcionar excelente filtragem biológica por cada exemplar, no caso de dois Axolotes quatro litros de mídias e etc…

Parâmetros

pH

Axolotes toleram uma larga faixa de ph, de 6,5 a 8,0, sendo considerada ideal entre 7,4 a 7,6. Contudo como sabemos a amônia em pH alcalino é extremamente tóxica, em pH acido se transforma quimicamente em amônio menos tóxico. Por esse motivo sempre mantive o pH levemente acido entre 6,6 a 6,8, dessa forma teremos a segurança em um eventual pico de amônia.

Nitrito

O Nitrito assim como a amônia em sistemas biologicamente estáveis normalmente estarão sob controle, de qualquer forma testes de água serão sempre bem vindos para confirmar esse equilíbrio em nossos sistemas. O nitrato deverá ser exportado através de trocas parciais (TPA) semanais ou no máximo quinzenais. Outra possibilidade de exportar nitrato é utilizando um filtro de plantas, existem vários projetos online disponíveis em fóruns ou artigos.

Temperatura

Provavelmente um dos fatores que mais matam Axolotes em nossos aquários. Esses anfíbios exigem águas frias com faixa ideal entre 16 e 18 Cº. Em temperaturas acima de 23 Cº a tendência é que se alimentem com mais vigor, infelizmente em pouco tempo o Axolote poderá sofrer de estresse agudo parando de comer, e morrendo rapidamente no aquário.

Os primeiros sintomas de estresse térmico incluem recusa de alimento e desenvolvimento de manchas em seu corpo, a perda de muco é relativamente comum nesses casos.

Muitos entusiastas mantem áreas refrigeradas com centrais de ar para evitar a perda precoce de seus Axolotes. No meu caso o Chiller(resfriador) foi um item indispensável na manutenção de meus “animais”. Em algumas regiões do brasil é possivel o uso de collers, principalmente em regiões com temperaturas sub tropicais, contudo um resfriador em minha experiencia será sempre uma das principais opções de manutenção.

Substrato

Infelizmente Axolotes tem o hábito de abocanhar o substrato por curiosidade, em muitos casos acabam engolindo podendo trazer consequências fatais a eles. Uma granulometria segura seria um substrato com o tamanho próximo da cabeça de um axolote, a questão é que fatalmente ocorrerá acumulo de detritos devido a grande granulometria.

Areia fina, estilo açúcar refinado poderá ser usada, contudo nossos anfíbios provavelmente irão engolir a areia, a diferença é que dificilmente trará consequências mais graves como bloqueio no intestino, sendo uma ótima opção.

Alimentação

Axolotes são genuinamente carnívoros, por esse motivo devemos proporcionar uma dieta que atenda suas necessidades nutricionais. O alimento deve ter tamanho suficiente para ser engolido inteiro, se for grande demais o Axolote simplesmente perderá o interesse soltando o alimento. Por não possui dentes cortantes devemos oferecer alimentos macios e de fácil aceitação.

Axolote comendo blood worms
Axolote comendo blood worms (créditos Teapot/caudata.org)

Em minha experiência o blood worms congelado sempre foi prontamente aceito, mesmo indivíduos maiores adoram esse alimento. Minhocas da Califórnia criadas em casa previamente picadas são bem aceitas. O interessante é que mesmo a minhoca cortada continua a se mover sendo um grande atrativo para o Axolote.

Rações de ótima qualidade para carnívoros podem ser tentadas, sendo muito importante que afundem. Basicamente o Axolote é um predador bentônico, prefere sempre a alimentação no fundo. No momento da alimentação devemos sempre alimentar com pequenas porções de cada vez, nunca colocar muito alimento.

Outras espécies

Basicamente um dos fatores de sucesso em manter Axolotes é criar um ambiente destinado para a espécie. Manter peixes pode ser uma ideia arriscada para ambos. Normalmente as guelras em formato de penas são frequentemente atacadas e roídas pelos peixes do aquário, peixes podem se tornar presas em potencial do axolote, por esse motivo o planejamento é fundamental.

Tamanho do aquário

Axolotes adultos podem chegar facilmente aos 25 cm ou mais, por esse motivo se for manter um grupo os animais devem ter espaço suficiente para não sofrerem com problemas de isolamento. Particularmente se tornam agressivos entre eles quando estressados, podendo ocasionar danos sérios aos seus companheiros do aquário. Em minha experiência podemos usar como referencia por exemplar cerca de 60 litros.

Podem ser mantidos como Pet fish, para muitos entusiastas a melhor configuração para manter Axolotes.

Axolotes são criaturas extraordinárias e apaixonantes, contudo é fundamental que possamos proporcionar as melhores condições para que possamos desfrutar por pelo menos 15 anos de sua beleza exótica e comportamento especial.

Referências

  1. Axolotl.org (link)

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Sobre Denis Cetera

Aquarista desde de 1987, um aficionado por todas as espécies ornamentais, sejam marinhas ou dulcicolas.

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Um comentário

  1. Excelente artigo !
    Segue nosso hobby brasileiro evoluindo…..

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